Seriedade, banalidade e um poquinho de sacanagem! ;)

sábado, 25 de agosto de 2007

Ele subia, cansado, a ladeira que o levaria a sua casa, esperando não ter novamente a surpresa de esbarrar num poste. Meninas brincavam de corda e aquilo o fascinara: ainda que ele já tivesse visto outras meninas brincando do mesmo, nunca vira criaturas tão doces e belas saltando por uma corda débil. Uma delas parou de pular, fixando o seu olhar nele, deixando-o atônito e maravilhado.

Ele não sabia o que fazer, quando, simplesmente, a garota se aproximou dele, afagou os seus cabelos macios, porém úmidos pela neblina, encostou no seu ouvido e, lentamente, sussurrou:

- Sua filha corre perigo de vida. Se eu fosse você, não ficaria aqui nem mais um minuto.

O sorriso formado pela beleza da menina se desfez em questão de segundos. Ele não soube o motivo, mas só sentiu vontade de sair desesperado e correr para a sua casa; e o fez. A ladeira tortuosa que ele subia sem vontade já não era empecilho, ele já não estava tão cansado assim; estava desesperado.

A porta de madeira envernizada não o deteve em sua busca, os palpites do seu coração poderiam ser ouvidos a quilômetros, sua respiração ofegante denunciava o seu desespero. Avistara um cachecol branco que não era das suas filhas. Pensou que elas pudessem estar acompanhadas e correu para o quarto:

- Filha! Quem está aqui? Onde está a sua irmã? Onde está a sua irmã?

A filha mais nova respondeu apontando para o guarda-roupas, imóvel na sua posição de sempre, indicando que brincavam de esconde-esconde. O pai, urrando, escancarou a porta, que estava trancada, com verocidade, como um urso que busca, faminto, por comida. E lá estava ela, a Sophia, sua filha mais velha, sete anos, olhando assustada para ele, achando-o um pouco estúpido para o que ele geralmente era.

Ele a pegou no colo, carregou-a, beijou-a, sentiu o perfume da sua pele macia, sussurrou em seu ouvido que a amava... A Sophia era asmática: qualquer momento sem respirar poderia levá-la a morte.

A mãe chegou apressada, ouvira os gritos da cozinha...

- Mas, o que houve aqui? Sophia?

E ela nem precisou ver o rosto da sua filha para saber o que estava acontecendo... Tomou a filha nos braços e chorou até desmaiar...

Todos voltavam abalados do enterro da pequena Sophia, morta asfixiada por uma brincadeira de criança. Era inacreditável que uma vida tão saudável e jovem pudesse ter se acabado em segundos. Tristeza e lágrimas não eram o suficiente para amenizar a imensa e sufocante dor que eles sentiam.

- Ela manda dizer que descans em paz. Ela mandou dizer que ama vocês.

Era a criança que avisara ao pai sobre a tragédia, estava com a mesma expressão suave e encantadora de sempre. O pai desejou saber mais, desejou entender como aquela menina sabia do que acontecia em sua casa, mas era só uma criança inocente e... Estava usando o mesmo cachecol branco que ele vira em sua casa... Ele não entendeu absolutamente nada, mas decidiu não pensar mais. Seguiu o seu caminho melancólico de volta pra casa...

Crianças brincavam de roda, lindas e despreocupadas... Ouvia-se o doce canto de meninas inocentes que não sabiam o quão árdua era a vida. Então, uma menina, vestindo um cachecol branco, aproximou-se das outras crianças, escolhendo uma só. Fez a proposta de irem até a casa da garota, porque ela precisava de água.

A casa estava vazia, ressonante e vazia. A menina, a moradora da casa, era extremamente alérgica e tinha crises por falta de ar quando entrava em contato com poeira. A menina do cachecol branco afagou suavemente os cabelos negros e espessos da amiga, olhou em direção ao porão e disse, guiando-a:

- Vamos brincar de esconde-esconde lá embaixo?