Seriedade, banalidade e um poquinho de sacanagem! ;)

segunda-feira, 4 de junho de 2007


Fascinação

- Ele não vem, não é? - perguntei aos criados, mas já sabendo a resposta.

Deitei-me na cama, onde esperava a chegada dele. Ao confirmar que ele não viria, apenas aguardei o que me esperava.


Estava ali, deitada naquela cama, esperando a morte chegar, com a terrível sensação de que ela já estava vindo. Então, dormi. E isso era o que eu menos queria naquele momento. Eu fechava os olhos, com sono, mas gostaria de impedir a sonolência dos meus olhos, porque pensava que ao dormir, morreria. E não voltaria aos braços dele nunca mais.


Mas eu não morri, pelo contrário. Acordei com grandes olhos me observando, os olhos da minha salvação.


- Por quê você fez isso, Flávia? - perguntou-me ele.


- Isso mudaria alguma coisa? Você veio. Eu pensei que nunca mais o veria...


- Você não pensa nos outros? Por quê você fez isso? Eu tenho o direito de saber! - gritava ele, naquele quarto onde só existia eu e a sua alma.


- Agora já está feito, Antônio. Eu não posso mais voltar atrás. Mas não me arrependo, eu juro. Só em tê-lo aqui mais uma vez, eu já me sinto melhor. Mais aliviada.


Ele chorava. As lágrimas o abandonavam, como se fosse ele quem estivese à beira da morte.


- Eu te amo, Flávia. Mas você não pensa nos outros, acha que sempre está certa! Por quê tomou esta droga de remédios? Por quê? Eu estou aqui, agora, pior do que você! Eu não sei se você sabe, mas daqui há algumas horas você vai estar morta, e eu aqui... Abandonado pelo seu egoísmo!


Aquelas palavras me tocaram como se fossem a própria morte. Eu tomara remédios após o término do nosso namoro, que para mim, era tudo. E o médico me avisara que eu só tinha lagumas horas de vida. Nada mais. E a pessoa que eu mais amava estava ali, na minha frente, me pedindo para desfazer algo que já não estava mais nas minhas mãos.


- Me desculpe! Eu não pensei antes de fazer isso, mas agora já está feito! APENAS ME PERDOE...

Ele não me disse mais nada. Tirou do bolso uma seringa, e chorando, injetou-se.

Eu não sabia o que estava acontecendo, mas quando vi o seu corpo se debatendo no chão do meu quarto, entrei em profundo desespero. Tentava gritar por ajuda, mas a minha voz não saía. Ele acabara de fazer o que eu tinha feito em poucas horas. Só que ele estava agonizando na minha frente. Morrera, e eu estava ali vendo tudo, vendo a razão da minha existência ir embora em questão de segundos.


Os médicos vieram, levaram seu corpo e me consolaram. Eu só estava mais tranquila, porque sabia que em pouco tempo, eu estaria de volta no calor do seu corpo. Eu me encontraria em seus braços novamente, ainda que eles não tivessem matéria, apenas a alma.


Pedi que me dessem um sonífero, e eles me atenderam.

Ao acordar, percebi que eu não estava junto ao seu corpo, como eu imaginava. Estava na mesma cama, onde gritava enquanto ele agonizava. Alguém me disse que eu não iria mais morrer, que eu passei por um processo de lavagem, que me salvaram da morte. E aquilo em afundou em uma imensa tristeza. Saber que eu não iria encontrar o Antônio me depressiava a tal ponto, que eu me enxerguei em um mundo só meu.

Mas logo tive que voltar a realidade. Os médicos me informaram que eu estava grávida. Eu?! Naquele instante eu não soube o que pensar. Por um momento da minha vida eu senti como se nem a minha carne, nem a minha alma estivessem me fazneod companhia, que todos teriam me abandonado. Eu não sabia o que iria fazer comigo.


Após o susto de tantas informações insanas, eu resolvi ter minha filha. Só por causa do meu amor pelo Antônio. Eu sentia na minha filha a presença dele. Sentia nela o brilho que ele tinha nos olhos, a maciez das suas mãos e o calor das suas palavras, ainda que, a Alice não falasse.
Algum dia, eu estava sentada com ela, olhando algumas fotos antigas. Ela já tinha cinco anos, estava esperta e linda! Linda como o pai... Nunca a contei-a sobre ele, nunca falei que ela tinha um pai. Nem ela tinha me perguntado ainda.

Estávamos ali, olhando aquelas fotos cobertas com a poeira do tempo, quando ela achou, escondida entre vários cartões postais, uma foto do Antônio. A única foto que eu tinha dele, mas nem eu mesma sabia onde estava.


- Mamãe, quem é esse homem? - perguntou-me ela, coma voz mais suave e mais delicada que já ouvira.


- É um velho amigo da mamãe... Um amigo. - respondi.


Ela, tão inocente e ingênua, continuou a brincar com a sua boneca de louça. Cantava uma música para ninar o pequeno brinquedo e olhava para a foto, sorrindo. Até que, em meio a canção de ninar e aos risos que ela soltava, ela me disse:


- Sabia que ele conta histórias pra eu dormir toda noite?